01-I: Parque Vila Velha, Furnas e Lagoa Dourada - Ponta Grossa
- Inscrição nº 1 do Livro do Tombo I - Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico
- Processo: 05/1966
- Data da Inscrição: 18 de janeiro de 1966
- Localização: Município de Ponta Grossa; BR-376.
- Proprietário: Governo do Estado do Paraná
Criado em 1953, o Parque Estadual de Vila Velha foi a primeira unidade de conservação do Paraná e também o primeiro bem tombado pelo Estado na categoria Arqueológica, Etnográfica e Paisagística (Inscrição nº 1 do Livro do Tombo I).
O Parque Estadual de Vila Velha, localizado no município de Ponta Grossa, na região dos Campos Gerais do Paraná, reúne um dos conjuntos naturais e paisagísticos mais expressivos do Estado. Formado por notáveis arenitos, furnas e pela Lagoa Dourada, o parque se destaca pela singularidade de suas formações geológicas, pela diversidade ambiental e pela forte presença no imaginário cultural paranaense.
Sua proteção reconhece a importância de preservar um patrimônio que integra natureza, história, ciência, memória e identidade cultural. Com área superior a 3.000 hectares, o parque está inserido no bioma Mata Atlântica e abriga remanescentes de campos naturais, bosques, matas de galeria e florestas com araucárias. Sua biodiversidade inclui mais de mil espécies de plantas, além de diversas espécies de animais, entre elas algumas raras, como a águia-cinzenta, o gato-mourisco e o lobo-guará. As formações areníticas estão entre os elementos mais marcantes do parque. A ação prolongada da erosão removeu as partes mais frágeis das rochas, esculpindo formas variadas que passaram a ser associadas a figuras reconhecíveis pelos visitantes, como Camelo, Rinoceronte, Muralha, Garrafa, Proa de Navio, Índio, Noiva, Cabeça de Gorila, Leão, Castelos, Bota, Esfinge, Malocas, Cogumelos, Farol, Baleia, Taça, Gavião, Tartaruga, Urso, Gruta e Planalto. Entre essas formações, a mais famosa é a Taça, imagem amplamente utilizada em materiais promocionais, logotipos e campanhas relacionadas ao Paraná, tornando-se um símbolo da paisagem natural e da identidade paranaense.
Além dos arenitos, o parque abriga as Furnas, grandes cavidades formadas pela infiltração da água por fraturas do arenito, e a Lagoa Dourada, conhecida por suas águas cristalinas e por sua coloração característica, associada à presença de minerais do grupo da mica em seu fundo.
A relevância do parque também se dá por conta de seus significados culturais, relacionados à presença de comunidades indígenas ancestrais e às diferentes formas de ocupação humana ao longo do tempo. Povos indígenas, como os Kaingang, atribuíram sentidos espirituais profundos às formações rochosas, conectando a paisagem a narrativas, símbolos e modos de compreensão do território. Posteriormente, desbravadores, tropeiros, missionários, exploradores científicos, agricultores, pecuaristas e turistas também contribuíram para a configuração histórica e cultural desse espaço.
O tombamento do Parque Estadual de Vila Velha, incluindo suas formações areníticas, as Furnas e a Lagoa Dourada, tem como objetivo proteger seus valores naturais, culturais, arqueológicos e paisagísticos. Ao salvaguardar esse conjunto, o Estado do Paraná reconhece a importância de preservar não apenas as formações geológicas, mas também as memórias, narrativas e relações humanas construídas em torno desse território. Dessa forma, o Parque Estadual de Vila Velha deve ser compreendido como um patrimônio integrado, no qual natureza e cultura não se encontram separadas. Sua preservação contribui para a valorização da história geológica dos Campos Gerais, da biodiversidade paranaense, das referências culturais associadas ao lugar e da identidade do Paraná, assegurando que esse legado permaneça acessível às futuras gerações por meio da educação, da pesquisa, do turismo sustentável e da proteção patrimonial.
HISTÓRICO
O Parque Estadual de Vila Velha está situado no Segundo Planalto Paranaense, na região conhecida como Campos Gerais, no município de Ponta Grossa. O acesso principal ao parque ocorre pela rodovia BR-376, que conecta o litoral a Curitiba e, em seguida, ao norte e noroeste do Paraná. A origem geológica de Vila Velha remonta a centenas de milhões de anos. Há aproximadamente 400 milhões de anos, a região onde hoje se encontra o parque era ocupada por ambiente marinho, no qual foram depositados sedimentos arenosos que, ao longo do tempo, deram origem aos arenitos esbranquiçados relacionados às Furnas. Posteriormente, há cerca de 300 milhões de anos, com as mudanças na posição dos continentes e a aproximação da região em relação ao Polo Sul, a área foi coberta por geleiras, contribuindo para a formação dos arenitos avermelhados que caracterizam Vila Velha.
Também há registros de que, há aproximadamente 60 milhões de anos, a crosta terrestre passou por profundas transformações que contribuíram para a configuração do relevo atual. Esses processos alteraram o ritmo dos levantamentos ocorridos no período terciário da Era Cenozoica e provocaram, na América do Sul, a orogenia do sistema andino e o abaixamento da borda continental leste do Brasil. Nesse contexto, Vila Velha é compreendida como consequência dessas modificações geológicas, assim como o Monument Valley, no Arizona, Estados Unidos, que lhe é contemporâneo.
Situada em altitude média de 900 metros, Vila Velha localiza-se em uma região de sedimentos paleozoicos e mesozoicos. Nela foram encontrados testemunhos fósseis importantes para a determinação de sua antiguidade, que remonta ao período Devoniano, último período da Era Paleozoica.
Na capa desse sistema devoniano afloram camadas mais resistentes do arenito subglacial, modeladas nas escarpas dos estratos pelos sistemas fluviais existentes no primitivo declive. Esses sistemas foram criados por movimentos epirogênicos e também são responsáveis pela existência dos rios subterrâneos, cursos d’água e boqueirões atuais.
A região apresenta topografia ondulada, com declives médios que não ultrapassam 10%. Faz parte do conjunto de rochas sedimentares da Bacia do Paraná, no qual dois grupos de rochas assumem grande importância: os arenitos da Formação Furnas e os arenitos de origem periglacial da Formação Itararé.
Em áreas de solo mais pobre ou mal drenadas, são encontradas formações de campos ou estepes. Em outras áreas, ocorreu o rejuvenescimento do solo, favorecendo a formação de florestas. Junto aos rios, vertentes e lagos, são encontradas formações de mata de galeria. Entretanto, a partir da colonização, esse quadro começou a ser alterado pela ação de agentes externos, entre eles o desmatamento.
Vila Velha, assim como todo o município de Ponta Grossa, está localizada na zona subtropical, caracterizada por baixas temperaturas no inverno e verões brandos. A área faz parte dos Campos Gerais, em terreno dominado pelo arenito da Formação Furnas.
Toda a região é constituída por rochas com ótima permeabilidade e porosidade, o que permite intensa infiltração das águas pluviais. Esse processo favorece o afloramento de água em muitos pontos e alimenta o nível estático das Furnas e da Lagoa Dourada. A água é de excelente qualidade, possui baixo teor de salinidade e é de fácil obtenção. Como consequência, muitos riachos e ribeiros correm para as áreas mais baixas.
Além de seu valor natural, a região de Ponta Grossa também possui importância econômica e territorial. Situada entre importantes zonas produtoras do Estado do Paraná e os portos exportadores de Paranaguá e Santos, é servida por extensa malha de rodovias e ferrovias, utilizadas para a distribuição da produção no mercado interno. O município sedia um dos maiores complexos de processamento de soja do mundo. Na região, a agricultura, estreitamente ligada à indústria, é bastante desenvolvida, com cultivo intenso de soja e trigo.
Vila Velha, conhecida como Itacueretaba, expressão associada à ideia de “aldeia que virou pedra”, já era conhecida desde o século XVI, quando portugueses e espanhóis começaram a transitar pela vasta região dos Campos Gerais por meio de bandeiras e expedições.
Aleixo Garcia, em 1526, e Pero Lobo e Francisco Chaves, em 1531, possivelmente teriam sido os primeiros europeus a percorrer os sertões onde se localizam essas formações rochosas. Anos depois, em 1541, D. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, na condição de adelantado, ou governador-geral do Paraguai, atravessou os Campos Gerais e, segundo registros históricos, teria passado pelos lugares onde hoje se situam as cidades da Lapa e de Ponta Grossa.
Em 1552, também passou pela região Ulrich Schmidel, alemão natural da Baviera. Acompanhado por cerca de 20 indígenas Carijós, teria sido o primeiro europeu a atravessar o Novo Continente de oeste para leste, de Assunção, no Paraguai, a São Vicente, no litoral de São Paulo, em direção contrária à seguida por Cabeza de Vaca.
Schmidel percorreu o Peabiru, trilha aberta e utilizada pelos povos indígenas havia séculos. O caminho partia do litoral Atlântico, seguia pelo Rio Ribeira até alcançar os Campos Gerais e, de lá, através do Tibagi, nas vizinhanças de Ponta Grossa, chegava ao Ivaí. Subindo pela Serra da Boa Esperança, alcançava o Rio Paraná, acima das extintas Sete Quedas; desse ponto, seguia pelo Chaco e, cruzando os Andes, chegava ao Pacífico.
Localizada à margem direita do Rio Tibagi, chamado de “rio do pouso”, na vasta e ondulada Ibeteba, ou “planície”, Vila Velha é um conjunto de formações rochosas trabalhadas pela erosão ao longo de milênios. Essas formações impressionaram a imaginação dos povos indígenas, que elaboraram narrativas transmitidas oralmente, geração após geração, pelos matuari, os mais velhos, aos jovens, como forma de explicar aqueles fenômenos.
Entre as narrativas associadas a Vila Velha, destaca-se a lenda do Abaretama, a “terra dos homens”, lugar sagrado onde seria guardado o Itainhareru, o “precioso tesouro”. Segundo a tradição, esse espaço era protegido por uma legião de Apiabas, homens notáveis escolhidos entre os mais valorosos de todas as tribos e treinados especialmente para desempenhar essa missão.
Esses guardiões desfrutavam de todas as regalias, mas eram proibidos de manter qualquer contato com mulheres, mesmo as de suas próprias tribos. Segundo a tradição, se as mulheres conhecessem o segredo do Abaretama, poderiam divulgá-lo aos quatro ventos. Caso a notícia chegasse aos inimigos, estes poderiam tomar o tesouro para si. Se o tesouro fosse perdido, Tupã deixaria de proteger seu povo e lançaria sobre ele grandes desgraças.
Em certa época, Dhui, indígena de uma das tribos, foi escolhido chefe supremo dos Apiabas. Como todos os outros, havia sido preparado desde a infância para a missão sagrada. No entanto, não desejava seguir o destino que lhe impunha o celibato. As tribos rivais, ao tomarem conhecimento da escolha de Dhui, resolveram aproveitar-se da situação. Elegeram, entre suas mais belas jovens, aquela que deveria tentar o guerreiro, conquistar-lhe o coração e tomar-lhe o segredo. A escolhida foi Aracê Poranga, a “Aurora Bonita”.
Pouco a pouco, Aracê despertou a atenção de Dhui, que se apaixonou por ela. Com o consentimento dele, Aracê penetrou no Abaretama. Em uma tarde primaveril, quando os ipês deixavam cair pétalas douradas, Aracê foi ao encontro de Dhui levando uma taça de uirucuri, o licor do butiá, para embriagá-lo. Porém, dominada também pelo amor, ela própria bebeu do licor. À sombra de um ipê, os dois permaneceram juntos.
Segundo a lenda, Tupã vingou-se desencadeando sua fúria na forma de um terremoto, que abalou toda a planície. O Abaretama virou pedra, o tesouro fundiu-se e transformou-se em líquido, e os dois amantes, castigados, ficaram para sempre um ao lado do outro, petrificados. A pouca distância permaneceu a causa de sua desgraça: a taça de pedra.
Ainda hoje, segundo a narrativa, quem passa pelo local pode ouvir o vento repetir a última frase de Aracê: “Xê pocê ó quê”, traduzida como “Dormirei contigo”. Foi assim que o Abaretama se tornou Itacueretaba. A terra fendeu-se, formando as grutas próximas a Vila Velha, e o tesouro fundido tornou-se a Lagoa Dourada, que, quando iluminada pelo sol, reflete o brilho do ouro.
Hoje, em meio à vastidão dos Campos Gerais, considerados por Saint-Hilaire um “verdadeiro paraíso”, as formações de Vila Velha continuam a exercer grande fascínio sobre quem as vê.
Transformadas em ponto de referência por bandeirantes e aventureiros que percorriam os Campos Gerais nos séculos XVI, XVII e XVIII, e atualmente visitadas por milhares de turistas do Brasil e do exterior, as formações de arenito passaram a ser identificadas por nomes populares, conforme a forma assumida pelas rochas.
Próximo aos arenitos de Vila Velha, localizam-se as Furnas, conhecidas como “Caldeirões do Inferno”. Elas possuem bocas circulares de aproximadamente 100 metros de diâmetro e paredes verticais que atingem mais de uma centena de metros de profundidade. Sua formação decorre de desabamentos doliniformes do arenito, nos vazios deixados na superfície inferior do solo pela dissolução de calcário.
Também próxima aos arenitos está a Lagoa Dourada, notável por suas águas cristalinas, com aproximadamente 300 metros de diâmetro e dois ou três metros de profundidade. Seu fundo é constituído de mica, ou malacacheta, e suas águas são alimentadas pelas Furnas por meio de canais subterrâneos. Suas águas cristalinas permitem a observação de espécies de peixes e reforçam o valor paisagístico do conjunto.
A preservação do Parque Estadual de Vila Velha contribui para a valorização da história geológica dos Campos Gerais, da biodiversidade paranaense, das referências culturais associadas ao lugar e da identidade do Paraná. Por isso, o conjunto permanece como um dos patrimônios naturais, culturais e paisagísticos mais importantes do Estado.






