133-II: Estação Ferroviária de Castro

  • Inscrição: 133-II no Livro do Tombo Histórico
  • Processo: 03/97
  • Data da Inscrição: 10 de outubro de 2000
  • Localização: Avenida Miguel Couto, s/n - Centro; Município de Castro
  • Proprietário: Particular - Rede Ferroviária Federal S.A.

A Estação Ferroviária de Castro, inaugurada em dezembro de 1899, integra a história da expansão ferroviária no Paraná e da antiga Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Localizada no Centro de Castro, a edificação representa um importante testemunho da circulação ferroviária de passageiros, cargas e mercadorias na região dos Campos Gerais. Tombada pelo Estado do Paraná em 10 de outubro de 2000, a estação também compõe, desde 2010, a Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário vinculada ao IPHAN.

 

Histórico

A Estação Ferroviária de Castro foi inaugurada em dezembro de 1899, no contexto de implantação do trecho Ponta Grossa-Castro da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. A ferrovia integrou um projeto de ligação entre diferentes regiões do Sul do Brasil, ampliando a circulação de pessoas, mercadorias e produtos e contribuindo para a reorganização econômica e urbana dos municípios alcançados pelos trilhos. A chegada da ferrovia a Castro marcou uma nova etapa na história da cidade, tradicionalmente associada ao Caminho das Tropas e às dinâmicas de circulação terrestre entre o Sul e o Sudeste. Com a implantação dos trilhos, o município passou a integrar de forma mais direta as redes ferroviárias regionais, articulando-se a Ponta Grossa, importante entroncamento ferroviário paranaense, e a outros centros de circulação econômica.

A ferrovia nos Campos Gerais deve ser compreendida como parte de um processo mais amplo de modernização dos transportes e de integração territorial. Estudos sobre o patrimônio ferroviário da região indicam que as cidades dos Campos Gerais vivenciaram diferentes fases relacionadas à ferrovia: um período de ascensão econômica entre fins do século XIX e as primeiras décadas do século XX, vinculado à exportação de erva-mate e madeira; uma fase de manutenção do transporte ferroviário como componente importante da economia regional; e, posteriormente, um processo de declínio, desativação de estruturas e substituição progressiva pelo transporte rodoviário.

Nesse sentido, a Estação Ferroviária de Castro constitui um testemunho material de uma etapa em que os trilhos passaram a reorganizar fluxos econômicos, sociais e urbanos. A ferrovia além do transporte de cargas e passageiros, alterava ritmos de vida, formas de deslocamento, relações comerciais e a própria percepção de modernidade nos municípios por ela atendidos. Entende-se, dessa forma, que o patrimônio ferroviário deve ser compreendido de modo interdisciplinar, articulando história, geografia, arquitetura, economia, memória social e organização do espaço urbano.

A edificação da estação apresenta estrutura arquitetônica simples, característica de construções ferroviárias funcionais do período. Foi construída em alvenaria de tijolos sobre embasamento de pedras. A cobertura, estruturada em tesouras de madeira, possui duas águas e telhas cerâmicas do tipo francesa. Na área da plataforma, a cobertura avança para criar uma área protegida de acesso, composta por sequência de mãos-francesas em madeira, engastadas em suportes também de madeira. A plataforma conta ainda com cobertura estruturada sobre apoios metálicos.

As paredes são rebocadas e possuem poucos elementos decorativos. Destacam-se os pilares estruturais, arrematados na parte superior por frisos em relevo. Internamente, o piso preserva, na parte original, revestimento em ladrilhos, enquanto a área recuperada apresenta placas de ardósia. As paredes internas são rebocadas e pintadas, e o forro é executado em tabuado com mata-junta.

O relato da viagem inaugural do trecho Ponta Grossa-Castro, realizada em 16 de dezembro de 1899, foi registrado por Ernesto Senna e publicado no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, em 1900. A narrativa menciona que as estações estavam enfeitadas e embandeiradas para a ocasião. Ao chegar à Estação de Castro, o trem inaugural foi recebido com solenidade, e o amplo armazém da estação foi preparado para receber um almoço oferecido aos convidados, evidenciando a importância pública e simbólica da inauguração da ferrovia para o município e para o Estado. Na mesma ocasião, após o almoço, a comitiva seguiu em direção à cidade e ao local da ponte sobre o rio Iapó. A ponte também foi decorada para a cerimônia, com bandeiras e arco festivo. O batismo da ponte, denominada Ponte do Iapó, integrou as celebrações da chegada da ferrovia, reunindo autoridades, moradores e visitantes. Esse episódio demonstra que a estação não era apenas uma infraestrutura de transporte, mas também um marco de modernização, integração territorial e representação pública do progresso técnico no final do século XIX.

Ao longo do século XX, a ferrovia continuou a exercer papel relevante na economia regional, embora gradualmente tenha perdido centralidade diante da expansão do transporte rodoviário. Estudos sobre as estradas de ferro no Paraná apontam que a Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande teve como objetivo a interligação entre o Sul e o Sudeste brasileiro, além de favorecer o escoamento de madeira e produtos agropastoris. Posteriormente, a companhia passou por diferentes fases administrativas, incluindo a incorporação à União em 1931, no contexto de reorganização das ferrovias brasileiras.

Após sua desativação pela Rede Ferroviária Federal S.A., a estação recebeu obras realizadas pela Prefeitura Municipal de Castro, em 1992, mediante convênio. A partir de então, passou a sediar atividades vinculadas ao Departamento de Cultura Municipal, mantendo sua função pública e cultural mesmo após a redução de seu uso ferroviário original. Essa reutilização se relaciona a uma discussão mais ampla sobre o destino do patrimônio ferroviário no Brasil, especialmente diante do abandono, da perda de estruturas e da necessidade de atribuir novos usos culturais, educativos e comunitários a antigas estações, armazéns, pátios e equipamentos ferroviários.

Em 10 de outubro de 2000, a Estação Ferroviária de Castro foi tombada pelo Estado do Paraná, com inscrição sob o n.º 133-II no Livro do Tombo Histórico. O reconhecimento estadual valorizou a importância da edificação como testemunho da história ferroviária paranaense, da modernização dos transportes e da transformação urbana de Castro na passagem do século XIX para o século XX.

Com a extinção da RFFSA, a Lei n.º 11.483, de 31 de maio de 2007, atribuiu ao IPHAN a responsabilidade de receber, administrar e zelar pelos bens móveis e imóveis de valor artístico, histórico e cultural oriundos da antiga rede ferroviária federal. Nesse contexto, foi instituída a Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário, instrumento de reconhecimento dos bens ferroviários considerados detentores de valor cultural. A Estação Ferroviária de Castro, juntamente com o terreno e o sanitário existente no pátio da estação, foi inscrita nessa lista em 21 de maio de 2010.

A preservação da Estação Ferroviária de Castro contribui para a compreensão das diferentes fases de circulação e desenvolvimento do município: do antigo Caminho das Tropas à implantação da ferrovia, da paisagem urbana oitocentista às transformações do século XX. Como patrimônio cultural, a estação permanece como referência material da história dos transportes, da arquitetura ferroviária, da memória do trabalho e da integração dos Campos Gerais às redes econômicas e territoriais do Paraná.

 

Relato da viagem inaugural do trecho Ponta Grossa-Castro, em 16 de dezembro de 1899, da estrada de Ferro S. Paulo-Rio Grande, da autoria de Ernesto Senna, publicado pelo jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1900, págs. 107 e 108:

“Ás 11 horas passámos a pequena ponte do Pitangui e as 11 e 50 parámos na estação de Carambehy, a 1.140 metros acima do nível do mar, seguindo para a estação do Tronco onde chegamos ao meio dia. Todas as estações estavam enfeitadas e embaideiradas com elegancia.
Á 12 1/2chegou o trem inaugural á Estação da cidade de Castro em cujo vasto e enorme armazem realizou-se o profuso almoço servido pela confeitaria Colombo desta capital, que caprichou na boa execução do serviço, apresentando uma bem montada mesa com peças artisticas e dispostas em forma sde I em que tomaram o lugar 108 convidados. O vasto armazem que foi transformado em um extenso bosque proficientemente preparado pelo Sr. Mechaux, armazenista da Companhia, apresentava um aspecto agradabilissimo e pittoresco, offerecendo assim aos convidados a mais suave e agradavel impressão.
Nesse almoço que terminou á 1 e 40 da tarde o Sr. Candido de Abreu, Secretario da Viação, brindou o Sr. Dr. Fernandes Pinheiro em nome do Governador do Estado, que agradecendo saudou o Governador do estado do Paraná. E, receiando o Dr. Fernandes Pinheiro que aberta a valvula aos brindes estes viram atrazar a viagam, fechou o regulador, declarando que tomava sobre si resumir todos os brindes, que por ventura estivesses engatilhados ou podessem expontaneamente axplodir, em um único, - ao futuro do Estado do Paraná.
De novo a comitiva tomou o trem e dirigio-se para a cidade no local em que se acha a notaval ponte do longo e largo rio Yapó, onde chegou s 1 e 50 minutos da tarde.
A cidade no local junto da ponte, estava enfeitada, notando-se a presença de grande numero de senhoras e cavalheiros. Em um grande arco lia-se em trophéus os nomes: Paulo Frontin, Crockat, Sá Morsing, H. Penna, e a palavra Yapó, estando tambem a ponte decorada com pequenas bandeiras de todas as nacionalidades.
Desembarcando a comitiva a Sra. Anna Sengés Gary, espoda do Sr. Luciano Gary, em companhia dos Srs. Drs. Fernandes Pinheiro e Andrade Pinto, dirigiu-se em um pequeno vagonete para o ponto central da ponte e ahi baptisando-a com o nome de Ponte de Yapó arremessou de encontro as vigas de ferro uma garrafa de Chanpagne. Innumeros foram os vivas e saudações levantados nessa occaião, executando a banda de musica o hynno nacional, no meio de atroadora explosão das salvas e da fogueteria"

 

KROETZ, Lando Rogério. As estradas de ferro do Paraná: 1880-1940. 1985. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1985.

MONASTIRSKY, Leonel Brizolla. Ferrovia: patrimônio cultural: estudo sobre a ferrovia brasileira a partir da região dos Campos Gerais (PR). 2006. Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006.

PARANÁ. Coordenação do Patrimônio Cultural. Estação Ferroviária de Castro. Curitiba: CPC, 2000.

PROCHNOW, Lucas Neves. A memória ferroviária como instrumento de preservação do patrimônio ferroviário. 2014. Dissertação (Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural) – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, 2014.

SENNA, Ernesto. [Relato da viagem inaugural do trecho Ponta Grossa-Castro, em 16 de dezembro de 1899, da Estrada de Ferro S. Paulo-Rio Grande]. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1900. p. 107-108.

  • 133-II Estação Ferroviária - Castro
    133-II Estação Ferroviária - Castro (2018)
    Foto: Acervo Documental da CPC
    133-II Estação Ferroviária - Castro (2018)
    Foto: Acervo Documental da CPC
    133-II Estação Ferroviária - Castro
    133-II Estação Ferroviária - Castro (2018)
    Foto: Acervo Documental da CPC
    133-II Estação Ferroviária - Castro (2018)
    Foto: Acervo Documental da CPC
    133-II Estação Ferroviária - Castro
    133-II Estação Ferroviária - Castro (sem data)
    Foto: Macaxeira (SEEC) Acervo Documental da CPC
    133-II Estação Ferroviária - Castro (sem data)
    Foto: Macaxeira (SEEC) Acervo Documental da CPC
    133-II Estação Ferroviária - Castro
    133-II Estação Ferroviária - Castro (sem data)
    Foto: Macaxeira (SEEC) Acervo Documental da CPC
    133-II Estação Ferroviária - Castro (sem data)
    Foto: Macaxeira (SEEC) Acervo Documental da CPC
    133-II Estação Ferroviária - Castro
    Inscrição de Tombamento 133-II Estação Ferroviária - Castro (2000)
    Foto: Acervo Documental da CPC
    Inscrição de Tombamento 133-II Estação Ferroviária - Castro (2000)
    Foto: Acervo Documental da CPC
    133-II Estação Ferroviária - Castro
    133-II Estação Ferroviária - Castro
    133-II Estação Ferroviária - Castro
    133-II Estação Ferroviária - Castro
    133-II Estação Ferroviária - Castro