19-II: Moinho do Mate - Campo Largo
- Inscrição: 19-II no Livro do Tombo Histórico
- Processo: 19/68
- Data da Inscrição: 10 de julho de 1968
- Localização: BR-277 Km - Distrito da Rondinha; Município de Campo Largo
- Proprietário: Governo do Estado do Paraná
- Outras denominações: Parque do Mate; Museu do Mate; Antigo Engenho de Mate da Rondinha
O Antigo Engenho de Mate da Rondinha, também conhecido como Moinho do Mate, Museu do Mate ou Parque Histórico do Mate, é um importante remanescente da economia ervateira paranaense. Construído por volta de 1870, no distrito da Rondinha, em Campo Largo, o conjunto preserva referências aos antigos engenhos hidráulicos utilizados no beneficiamento da erva-mate, atividade fundamental para a formação econômica, social e cultural do Paraná. Tombado pelo Estado do Paraná em 10 de julho de 1968, o bem foi posteriormente adquirido pelo Governo do Estado e destinado à criação de um espaço cultural voltado à memória da produção do mate.
Histórico
A erva-mate integrou uma das principais bases econômicas da formação histórica do Paraná. Ao lado da madeira, da farinha de mandioca, da criação e circulação de tropas de gado e muares, sua exploração e comercialização contribuíram para a ocupação do território, a organização de núcleos populacionais e a consolidação de circuitos produtivos entre o planalto e o litoral. No século XIX, a economia ervateira ganhou importância crescente, articulando atividades extrativas, transporte, beneficiamento e exportação, especialmente por meio do Porto de Paranaguá.
O comércio do mate ganhou força no Paraná no século XIX. A publicação Espirais do Tempo registra que, a partir de 1772, o comércio da congonha passou a se vincular ao Rio da Prata e que, no século XIX, o produto se consolidou como base econômica do Estado, tendo Paranaguá como área dinâmica do comércio exportador. Estudos sobre a evolução do setor ervateiro também destacam que, nos Oitocentos, a erva-mate esteve entre os produtos importantes do Império brasileiro, com mercados consumidores na Argentina, no Uruguai, no Chile e na Bolívia.
As técnicas tradicionais de preparo da erva-mate envolviam a coleta da erva nativa, o sapeco dos galhos recém-colhidos, a secagem, a seleção e a trituração. Com o desenvolvimento da produção, surgiram engenhos movidos por tração animal, força humana, trabalho escravizado e, posteriormente, força hidráulica. Esses equipamentos permitiram o beneficiamento em maior escala, mantendo etapas como secagem, moagem, peneiramento e acondicionamento da erva.
O Antigo Engenho de Mate da Rondinha foi construído por volta de 1870, no distrito da Rondinha, em Campo Largo, e é associado ao Capitão Carlos José de Souza Franco. Em 1874, o viajante inglês Thomas Bigg-Wither mencionou um engenho de mate nos arredores de Campo Largo, provavelmente correspondente ao atual Museu do Mate. No ano seguinte, a monografia O Mate do Paraná, de A. J. Macedo Soares, registrou a existência de treze engenhos em Campo Largo, entre eles o de Carlos Franco.
O conjunto da Rondinha constitui um raro remanescente dos antigos engenhos de soque hidráulico vinculados ao beneficiamento da erva-mate. Situado no sopé de um morro e integrado a uma área de relevo acidentado, o engenho aproveitava a proximidade de um curso d’água, desviado do Rio Rondinha por meio de canal, para movimentar a roda d’água e acionar o maquinário. Essa solução demonstra a relação direta entre implantação arquitetônica, paisagem, força hidráulica e tecnologia produtiva.
A folha de inscrição no Livro do Tombo descreve o bem como “Moinho do Mate”, de natureza “arquitetura rural”, inscrito em caráter voluntário. O documento registra que, à época do tombamento, o imóvel estava localizado na Rondinha, em Campo Largo, tinha como proprietário Constantino Egídio Marchioratto e era composto por prédio e galpões construídos com madeira, pedra e barro. A mesma folha menciona a presença de roda d’água em madeira e informa que, com água suficiente e as mós afiadas, o equipamento podia moer cerca de 400 quilos de milho em uma jornada de dez horas, indicando sua adaptação posterior como moinho.
Em 1896, quando pertencia à família Marchioratto, o antigo engenho de mate foi adaptado para a moagem de cereais. Segundo Espirais do Tempo, essa adaptação implicou alterações na estrutura original, como a demolição do forno, a retirada da bateria de pilões, a construção de mezanino e a alteração do telhado, com introdução de mós e reaproveitamento da mesma força motriz hidráulica. Essa transformação revela a versatilidade dos engenhos hidráulicos e sua capacidade de atender a diferentes atividades produtivas ao longo do tempo.
A partir da segunda metade do século XIX, o setor ervateiro passou por importantes transformações técnicas. A introdução de engenhos a vapor, secadores, trituradores, peneiras mecânicas, misturadores, compressores e novas formas de acondicionamento, como as barricas de madeira, aumentou a produtividade, a qualidade e a durabilidade do produto. Essas inovações contribuíram para a consolidação de uma indústria ervateira mais mecanizada, tornando progressivamente obsoletos os antigos engenhos movidos por força humana, animal ou hidráulica.
O tombamento estadual do Moinho do Mate ocorreu em 10 de julho de 1968, por meio do Processo n.º 19/68, com inscrição sob o n.º 19-II no Livro do Tombo Histórico. Posteriormente, a área foi desapropriada para implantação de um complexo cultural e turístico voltado à memória da erva-mate. O Decreto n.º 5.728, de 25 de outubro de 1978, declarou o imóvel de utilidade pública para fins de desapropriação, destinando-o à instalação do Museu do Mate.
Entre 1980 e 1981, o conjunto foi restaurado pelo Governo do Estado do Paraná e passou a funcionar como Museu do Mate. A restauração, executada conforme projeto dos arquitetos Cyro Corrêa de Oliveira Lyra e José La Pastina Filho, buscou reconstituir a estrutura original da edificação e reunir equipamentos relacionados à produção, permitindo representar as etapas de funcionamento de um engenho de mate. A identificação das antigas fundações possibilitou a recomposição da planta baixa original, quadrada, bem como a recuperação de elementos estruturais de cobertura, piso, vedações e esquadrias.
O Regimento Interno do Parque Histórico do Mate, elaborado em 1978, definia o conjunto como espaço destinado à preservação, difusão, pesquisa, educação e lazer. Entre suas atribuições estavam a promoção de cursos, a realização de pesquisas históricas, antropológicas, econômicas, agrícolas e bibliográficas, a coleta, classificação, catalogação, restauração e estudo de objetos vinculados à erva-mate, além da organização de exposições e do desenvolvimento de ações de educação ambiental.
O tombamento federal ocorreu em 24 de abril de 1985, pelo IPHAN, com inscrição no Livro Histórico e no Livro das Belas Artes, incluindo o engenho, o acervo e o terreno. A proteção em âmbito federal reforçou a importância do conjunto não apenas como edificação histórica, mas também como testemunho da tecnologia produtiva, do trabalho, da economia regional e da cultura material ligada à erva-mate.
Do ponto de vista interpretativo, o Antigo Engenho de Mate da Rondinha pode ser compreendido como patrimônio industrial em meio rural. Pesquisas sobre a salvaguarda do patrimônio industrial no Paraná destacam que o conjunto reúne arquitetura, maquinário, ferramentas, acervo museológico e paisagem produtiva, permitindo compreender as relações entre tecnologia, trabalho e sociedade. Nesse sentido, sua preservação não se limita à conservação de uma edificação antiga, mas envolve a memória de um processo produtivo fundamental para a história econômica paranaense.
Dessa forma, o Antigo Engenho de Mate da Rondinha representa um dos mais importantes testemunhos materiais do ciclo ervateiro no Paraná. Sua preservação valoriza a arquitetura rural, a tecnologia hidráulica, a memória do trabalho, as transformações da produção da erva-mate e a formação de uma economia regional que marcou profundamente a história social, cultural e econômica do Estado.
PARANÁ. Coordenação do Patrimônio Cultural. Moinho do Mate, Campo Largo. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 1988.
PARANÁ. Coordenação do Patrimônio Cultural. Campo Largo: Antigo Engenho de Mate da Rondinha. In: PARANÁ. Coordenação do Patrimônio Cultural. Espirais do tempo: bens tombados do Paraná. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 2006. p. 62-67.
PARANÁ. Governo do Estado. Regimento interno: Parque Histórico do Mate. Curitiba: Estado do Paraná, 1978. Documento interno.
PEREIRA, André Luis. O processo de mecanização do Engenho Tibagy (1878-1884). 2018. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2018.
PEREIRA, Juliana Regina. Notas sobre a salvaguarda do patrimônio industrial no Paraná. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA DA ANPUH-PR, 15., 2016, Curitiba. Anais eletrônicos [...]. Curitiba: ANPUH-PR, 2016.
ROSA, Lilian da; SOUZA, Taciana Santos de. Evolução do setor ervateiro durante o século XIX: uma análise dos avanços tecnológicos na cadeia produtiva da erva-mate. História Econômica & História de Empresas, São Paulo, v. 22, n. 1, p. 11-42, 2019.




































