28-I e 180-II: Conjunto Histórico, Urbanístico e Paisagístico de Morretes
- Inscrição: 28-I no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e 180-II no Livro do Tombo Histórico
- Processo: 04/97
- Data da Inscrição: 18 de julho de 2022
- Localização: Área central; Município de Morretes
- Proprietário: Diversos
- Outras denominações: Centro Histórico de Morretes
Normativa: , conforme .
O Conjunto Histórico, Urbanístico e Paisagístico de Morretes reúne uma das paisagens urbanas mais representativas da formação histórica do litoral paranaense. Situado às margens do Rio Nhundiaquara e ao sopé da Serra do Mar, o centro histórico preserva relações entre natureza, caminhos coloniais, arquitetura, ferrovia, atividades comerciais, navegação fluvial e modos tradicionais de ocupação. O processo de tombamento foi iniciado em 1997 e concluído em 2022, com inscrição simultânea no Livro do Tombo Histórico e no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, reconhecendo o valor integrado do conjunto urbano, arquitetônico, arqueológico, paisagístico e cultural.
Histórico
Morretes está inserida no contexto de ocupação do litoral paranaense e das primeiras incursões em busca de ouro nos rios que deságuam na Baía de Paranaguá. Desde a segunda metade do século XVI, a região passou a ser frequentada por vicentistas, faiscadores, preadores e comerciantes, atraídos tanto pelas notícias de metais preciosos quanto pela posição estratégica da baía e dos rios que permitiam o acesso ao interior.
A ocupação da região de Morretes esteve diretamente relacionada ao Rio Nhundiaquara, antigo Cubatão, e aos caminhos terrestres que ligavam o litoral ao planalto. Os estudos técnicos do processo de tombamento indicam que a consolidação do núcleo urbano ocorreu em razão de suas vantagens geográficas, especialmente pela proximidade com os caminhos coloniais do Arraial, da Graciosa e, sobretudo, do Itupava, ligação essencial entre Curitiba e Paranaguá. Esses caminhos, em parte ou na íntegra, já eram utilizados por populações indígenas antes da ocupação colonial.
Em 1721, diante do fluxo de pessoas e da necessidade de organização da ocupação, a Câmara Municipal de Paranaguá determinou a medição e demarcação de 300 braças em quadra para servir de sede à futura povoação, cuja formação se consolidou em 1733. O processo de fixação e crescimento populacional foi marcado pela construção da primeira igreja, por volta de 1769, dedicada a Nossa Senhora do Porto e Menino Deus dos Três Morretes, reafirmando a centralidade religiosa e urbana do núcleo.
A posição de Morretes, entre o litoral e o planalto, favoreceu sua função como entreposto comercial e ponto de controle da circulação de pessoas e mercadorias. O Caminho do Itupava, associado à navegação pelo Nhundiaquara, teve papel decisivo nesse processo, pois articulava a travessia da Serra do Mar aos deslocamentos fluviais até a Baía de Paranaguá. O Caminho do Arraial, por sua vez, manteve importância como alternativa de transposição da serra, especialmente para o transporte de gado e para a circulação em direção a São José dos Pinhais e Curitiba.
A história urbana de Morretes também se relaciona aos ciclos econômicos do ouro, do tropeirismo, da erva-mate, da madeira, da agricultura, da produção de cachaça e, posteriormente, do turismo. A intensificação da exportação da erva-mate no século XIX reforçou a necessidade de boas rotas de transporte entre o planalto e o litoral. Nesse contexto, Morretes consolidou-se como ponto de passagem, abastecimento, comércio e prestação de serviços.
A implantação da ferrovia Paranaguá–Curitiba, inaugurada em 1885, e do ramal de Antonina acrescentou nova camada à paisagem urbana e econômica da cidade. A ferrovia passou a integrar a dinâmica de circulação regional e deixou marcas no tecido urbano, especialmente nas áreas próximas à estação, aos armazéns e às antigas estruturas associadas ao transporte e à logística. Os estudos técnicos identificam, inclusive, um setor logístico-fabril no entorno da estação ferroviária e em direção à Estrada da Graciosa, formado por grandes lotes resultantes de antigos usos industriais e de armazenagem.
A mancha urbana mais antiga desenvolveu-se principalmente na margem direita do Rio Nhundiaquara, reproduzindo características da implantação luso-brasileira em sítios adaptados ao suporte natural. O traçado urbano é orgânico, articulado ao rio, aos caminhos e aos largos, mesclando eixos viários tradicionais, espaços de permanência, áreas de circulação de pedestres e visuais voltadas para a Serra do Mar e para o próprio rio.
A relação entre o construído e o natural constitui um dos principais valores do conjunto. As edificações históricas, os lotes estreitos e profundos, os quintais, os avarandados, as áreas voltadas ao rio, as pontes, a ferrovia, as praças e as visadas para a paisagem serrana formam uma composição singular. Em grande parte, as edificações possuem gabarito baixo, com predominância de construções térreas ou de poucos pavimentos, o que permite a leitura da relação entre a cidade, o rio e a Serra do Mar.
O Centro Histórico de Morretes também preserva referências associadas à vida cotidiana, ao comércio, à alimentação, à hospedagem, à navegação, à religiosidade e às práticas culturais locais. A cachaça morretiana, o barreado, o artesanato, as festas religiosas, os restaurantes às margens do Nhundiaquara e a presença do trem turístico compõem usos contemporâneos que dialogam com a memória histórica e com a vocação turística da cidade.
A proteção estadual reconhece que o valor do conjunto não está apenas nas edificações isoladas, mas na articulação entre arquitetura, urbanismo, paisagem, rio, ferrovia, caminhos históricos e práticas sociais. Por esse motivo, o tombamento foi inscrito em dois Livros do Tombo: o Livro do Tombo Histórico e o Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Essa dupla inscrição permite uma leitura mais ampla e integrada do bem, contemplando tanto seus valores históricos e arquitetônicos quanto seus aspectos paisagísticos, arqueológicos, etnográficos e ambientais.
O tombamento do Conjunto Histórico, Urbanístico e Paisagístico de Morretes foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (CEPHA), na 152.ª reunião ordinária, realizada em 25 de novembro de 2013. A inscrição nos Livros do Tombo ocorreu em 18 de julho de 2022, sob os n.ºs 180-II e 28-I. O processo de tombamento, iniciado em 1997, foi concluído após estudos técnicos, levantamentos, inventários e elaboração das Normas de Uso e Ocupação do conjunto.
As Normas de Uso e Ocupação do Conjunto Histórico, Urbanístico e Paisagístico de Morretes, aprovadas pela Resolução n.º 54/2022 – SECC, disciplinam intervenções no Perímetro Tombado e no Perímetro de Entorno. Essas normas tratam de edificações, infraestrutura urbana, circulação, publicidade, mobiliário urbano, equipamentos, paisagem, graus de proteção dos imóveis e demais ações que possam interferir na integridade do conjunto. Dessa forma, a preservação de Morretes busca compatibilizar conservação do patrimônio, uso cotidiano da cidade, turismo, desenvolvimento urbano e valorização da paisagem cultural.
A proteção do Centro Histórico de Morretes reafirma a importância da cidade para a história do Paraná. Sua preservação contribui para manter viva a memória da ocupação do litoral, dos caminhos entre planalto e costa, da navegação pelo Nhundiaquara, da ferrovia, dos ciclos econômicos regionais e das formas de relação entre sociedade, arquitetura e natureza na paisagem paranaense.
GOMES, Sandro Aramis Richter. Descentralização e pragmatismo: condições sociais de produção das memórias históricas de Antonio Vieira dos Santos (Morretes e Paranaguá, décadas de 1840-1850). 2012. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2012.
KATO, Allan Thomas Tadashi. Retrato urbano: estudo da distribuição socioespacial dos moradores de Paranaguá, Antonina e Curitiba no início do século XIX. 2011. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2011.
KERSTEN, Márcia Scholz de Andrade. Os rituais do tombamento e a escrita da história: bens tombados no Paraná entre 1938-1990. 2000. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2000.
MEIRA, Etienne Desireé. A história de um patrimônio cultural: a cachaça morretiana. 2013. Dissertação (Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade) – Universidade da Região de Joinville, Joinville, 2013.
PARANÁ. Coordenação do Patrimônio Cultural. Normas de Uso e Ocupação do Conjunto Histórico, Urbanístico e Paisagístico de Morretes: versão atualizada, conforme Resolução n.º 54/2022 – SECC. Curitiba: CPC/SECC, 2022.
PARANÁ. Coordenação do Patrimônio Cultural. O Tombamento do Centro Histórico de Morretes - PR: conhecer para preservar. Curitiba: CPC/SECC; Prefeitura Municipal de Morretes, 2023.
PARANÁ. Coordenação do Patrimônio Cultural. Conjunto Histórico, Urbanístico e Paisagístico de Morretes. Curitiba: CPC/SEEC, 2022.




















































