24-I: Sítio Geológico Cratera de impacto de Vista Alegre - Coronel Vivida
- Inscrição: 24-I no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico
- Processo: 02/2007
- Data da Inscrição: 15 de julho de 2008
- Localização: Distrito de Vista Alegre, junto à PR-562; Município de Coronel Vivida
- Proprietário: Particular – Lourenço Magnabosco e Severino Zelin
O Sítio Geológico Cratera de Impacto de Vista Alegre, localizado no Distrito de Vista Alegre, em Coronel Vivida, preserva afloramentos rochosos associados a uma antiga cratera formada pelo impacto de um corpo celeste. A estrutura circular, com cerca de 9,5 km de diâmetro, constitui uma das poucas crateras de impacto reconhecidas no Brasil e uma das raras ocorrências desse tipo em derrames basálticos. Tombado pelo Estado do Paraná em 15 de julho de 2008, o sítio possui grande importância científica, educativa, paisagística e geoturística.
Histórico
O Sítio Geológico Cratera de Impacto de Vista Alegre está inserido em uma estrutura circular localizada no município de Coronel Vivida, no sudoeste do Paraná. A cratera, também conhecida como Astroblema de Vista Alegre, apresenta aproximadamente 9,5 km de diâmetro e corresponde ao remanescente erosivo de uma antiga cratera de impacto meteorítico formada sobre rochas vulcânicas basálticas da Formação Serra Geral, na Bacia do Paraná.
A estrutura tornou-se conhecida cientificamente em 2004, a partir da identificação de uma anomalia geomorfológica circular em imagens de satélite e modelos digitais de elevação. As observações locais foram associadas às análises realizadas por pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, especialmente pelo professor Álvaro Penteado Crósta e sua equipe, que reconheceram no local feições compatíveis com crateras de impacto. A descoberta foi posteriormente apresentada à comunidade científica internacional, contribuindo para inserir Vista Alegre nos estudos sobre impactos meteoríticos no Brasil.
A cratera situa-se em uma área rural marcada por intensa atividade agrícola, especialmente cultivo de soja, milho e feijão. Antes de sua identificação como estrutura de impacto, a localidade era percebida principalmente como uma área produtiva e de relevo peculiar. A leitura científica da paisagem, no entanto, permitiu reconhecer que a depressão circular, as bordas escarpadas, os padrões de drenagem e os afloramentos rochosos guardam registros de um evento geológico raro e de grande valor para a compreensão da história da Terra.
A idade precisa da cratera ainda não é plenamente definida. Estudos geológicos indicam que o impacto ocorreu após a consolidação dos basaltos da Formação Serra Geral, atribuindo à estrutura uma idade máxima da ordem de 125 milhões de anos. Outras pesquisas e materiais de divulgação científica mencionam idade aproximada de 115 milhões de anos, reforçando sua associação ao contexto geológico do final da Era Mesozóica e à evolução posterior da paisagem durante a Era Cenozóica.
A estrutura de Vista Alegre apresenta uma depressão quase circular, com bordas íngremes e desníveis topográficos que podem atingir cerca de 120 metros entre a parte externa e o interior da cratera. Em seu interior, predominam colinas suavemente onduladas, enquanto a área externa apresenta relevo mais irregular. A drenagem associada à cratera inclui córregos como o Surubim e o Quieto, além da influência do rio Chopim, cujos processos erosivos contribuíram para modificar partes da estrutura ao longo do tempo.
O bem tombado corresponde especificamente a uma pequena pedreira desativada localizada no Distrito de Vista Alegre, próxima à PR-562 e à margem esquerda do rio Surubi. A área protegida possui cerca de 110 m por 95 m, totalizando aproximadamente 10.450 m², e apresenta paredes de rocha nua com altura variável entre 2 e 4 metros. Essa pedreira é considerada especialmente importante porque conserva afloramentos de brechas de impacto, principais evidências materiais do fenômeno que originou a cratera.
O sítio, objeto do tombamento, é uma pequena pedreira, apresentando dimensões de 110m x 95m ou 10.450m² e composta por paredes de rochas nuas, cuja altura varia de 2 a 4 metros. Situa-se no distrito de Vista Alegre, junto à rodovia PR - 562 e na margem esquerda do Rio Surubi, tendo como coordenadas geográficas 25º 56' 13,0" S 25º 42' 29,0" O, conforme memorial descritivo da área que consta dos autos do processo de tombamento às folhas 75 integrante do documento denominado "Termo de Anuência dos Proprietários".
As brechas de impacto são rochas formadas pela fragmentação, deformação e fusão parcial de materiais preexistentes durante o evento de colisão. No caso de Vista Alegre, essas rochas contêm fragmentos de basaltos e arenitos, além de material fundido e estruturas geradas pela passagem de ondas de choque. Entre as feições mais importantes identificadas no sítio estão os chamados cones de estilhaçamento, ou shatter cones, estruturas estriadas em forma cônica que constituem uma das principais evidências macroscópicas de impacto meteorítico.
Outro elemento de grande relevância científica é a presença de feições planares de deformação, conhecidas pela sigla PDFs, identificadas em grãos de quartzo presentes em fragmentos de arenito incorporados às brechas. Essas feições microscópicas são geradas sob condições extremas de pressão, provocadas pela passagem das ondas de choque do impacto, e auxiliam na comprovação da natureza meteorítica da estrutura.
A importância científica do sítio também decorre do fato de Vista Alegre ter sido descrita como uma ocorrência rara de cratera de impacto em rochas basálticas. Estudos publicados pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos destacam que os cones de estilhaçamento encontrados em Vista Alegre estão entre os primeiros exemplos conhecidos na Terra formados em basalto, o que amplia o interesse do local para pesquisas em geologia, geomorfologia, sensoriamento remoto, astrogeologia e educação científica.
Além de seu valor científico, o sítio possui relevância educativa e geoturística. A partir de 2006, por meio de ações envolvendo a Mineropar, a UNICAMP e a Prefeitura Municipal de Coronel Vivida, foram elaborados materiais de divulgação, folhetos e painéis explicativos sobre a cratera. Posteriormente, também foi implantado um mirante voltado à contemplação da paisagem da cratera, com o objetivo de ampliar o conhecimento público sobre o geossítio e incentivar práticas de geoturismo e educação não formal.
A dissertação de Marco Aurélio Riesemberg Hundsdorfer destaca que, apesar do reconhecimento científico da cratera, o conhecimento sobre o geossítio ainda permaneceu por muito tempo restrito ao meio acadêmico, sem alcançar plenamente a população local e paranaense. Nesse sentido, ações de divulgação científica, educação patrimonial e interpretação ambiental são fundamentais para que a comunidade reconheça a importância do sítio e participe de sua preservação.
O processo de tombamento teve início em 2007, a partir de solicitação da Prefeitura Municipal de Coronel Vivida, que buscava proteger a pedreira onde se encontravam os principais registros do impacto. A justificativa apresentada ressaltava a raridade do fenômeno, seu valor científico, turístico e educativo, além da necessidade de proteger o afloramento contra riscos de abandono, extração, vandalismo, erosão e demais formas de degradação.
O tombamento foi aprovado na 129.ª reunião do Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, realizada em 11 de dezembro de 2007, e inscrito em 15 de julho de 2008 no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, sob o n.º 24-I. Ao reconhecer o Sítio Geológico Cratera de Impacto de Vista Alegre como patrimônio cultural do Paraná, o Estado valorizou um bem de natureza geológica, científica e paisagística, cuja preservação contribui para a compreensão da história natural do território paranaense e para a divulgação do patrimônio geológico brasileiro.
A preservação do sítio reforça a importância de reconhecer o patrimônio natural como parte integrante do patrimônio cultural. A Cratera de Impacto de Vista Alegre não representa apenas uma formação geológica rara, mas também um lugar de pesquisa, educação, memória ambiental, paisagem e pertencimento territorial. Sua proteção possibilita aproximar ciência e sociedade, contribuindo para a valorização do conhecimento geocientífico e para a conservação de um registro excepcional da história do planeta.
CRÓSTA, Álvaro Penteado; FURUIE, Rafael de Aguiar; SCHRANK, Alfonso; KAZZUO-VIEIRA, César. Astroblema de Vista Alegre, PR: impacto meteorítico em derrames vulcânicos da Formação Serra Geral, Bacia do Paraná. In: WINGE, Manfredo et al. (org.). Sítios geológicos e paleontológicos do Brasil. Brasília: SIGEP, 2013. v. 3, p. 23-36.
HUNDSDORFER, Marco Aurélio Riesemberg. Cratera de impacto de Vista Alegre (Coronel Vivida, PR) e seu conteúdo geocientífico como educação não formal. 2017. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2017.
FERNANDEZ, Oscar Vicente Quinonez; TIZ, Greicy Jhenifer; JESUS, Kelly Ariane de; NACKE, Sonia Mary Manfroi. Caracterização morfométrica da rede de drenagem associada à cratera de impacto de Vista Alegre, município de Coronel Vivida, Sudoeste do Paraná, Brasil. Revista Brasileira de Geografia Física, Recife, v. 6, n. 2, p. 157-169, 2013.
PARANÁ. Coordenação do Patrimônio Cultural. Processo de Tombamento n.º 02/2007: Sítio Geológico Cratera de Impacto de Vista Alegre – Coronel Vivida. Curitiba: CPC, 2007. Documento interno.
SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. Geossit: Astroblema de Vista Alegre. Brasília: SGB, [s.d.].


























